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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

AS ORIGENS DA LÍNGUA PORTUGUESA

A língua falada é uma das principais ferramentas da expressão cultural de um povo. Nossa língua portuguesa possui uma origem bastante curiosa e, para conhecê-la, é necessário compreender um pouco da história da formação de Portugal.

O Império Romano chegou a dominar quase todo o mundo conhecido no século 3; era dito que desde onde o Sol nascia até onde ele se punha pertencia a Roma. Todas as terras em volta do mar Mediterrâneo eram controladas pelos soldados romanos ou centuriões, como eram chamados aqueles guerreiros.

A Península Ibérica, onde hoje está Portugal e Espanha, era ocupada originalmente pelos povos iberos, que falavam uma variedade de dialetos locais. Com a ocupação romana, muita gente das camadas sociais mais simples de Roma migrou para a Península Ibérica. Eram operários, comerciantes e soldados, que falavam o latim mais vulgar, diferente daquele falado pela aristocracia e pelos literatos romanos.

Toda cultura mais forte impõe naturalmente certo grau de influência sobre as expressões culturais de um povo menos poderoso em força bélica e dominado, como aconteceu entre brancos e índios, e ainda acontece entre o Brasil e os EUA, pelo menos no campo da dominação econômica e da dependência científica e tecnológica. Sendo assim, o latim vulgar foi amplamente imposto e difundido por toda Península Ibérica, e é a base principal da formação do português falado hoje. A palavra vírgula, por exemplo, é uma união do termo latino "VIRG", que quer dizer vara e, seguido do sufixo "ULA", equivalente ao nosso diminutivo inha, forma a expressão "VARINHA" ao pé da letra. Eis um lote das conhecidas varinhas: ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,.

Outra palavra da língua portuguesa com origem curiosa no latim vulgar é pílula. Formada pela união entre o termo "PIL", que representa bola, e o diminutivo "ULA", a palavra nomeou nossas "BOLINHAS" tão ingeridas no dia-a-dia como vitaminas, remédios e anticoncepcionais.

Em 300 anos após a invasão romana, a Península Ibérica quase inteira falava uma derivação local do latim vulgar, chamada de Romanço. A única exceção ocorreu numa região montanhosa ao norte da Espanha, chamada de Vascongada, perto da divisa com o sul da França. Ali, até hoje vive o povo original ibérico chamado de basco. Os bascos conseguiram manter sua cultura geral e sua língua preservadas da tão forte influência romana, tendo inclusive influenciado de forma significativa o vocabulário da língua portuguesa com algumas palavras: cama, esquerdo, bizarro e modorra são palavras cuja origem deriva do dialeto basco.

Ainda hoje, em pleno século 21, os bascos usam seu braço armado, o grupo separatista basco ETA, com atividades de ação terrorista em muitos casos, para reivindicarem sua separação da Espanha.


A Península Ibérica na parte inferior do mapa, formada pela Espanha, em verde, e Portugal, em Branco, tem ao norte o pequeno território basco em destaque, que se estende até regiões do extremo sul da França, em vermelho

Embora o latim falado pelo povo tenha sido a principal base de formação do idioma português, nossa língua recebeu, em sua formação, a influência lingüística de outras etnias além dos romanos.

No século 5, os bárbaros germânicos ou escandinavos invadiram a Península vindos do norte. Os germânicos originaram o que hoje é o povo alemão e seus vizinhos no norte da Europa. Suas atividades principais naquela época eram a guerra e a pilhagem dos bens de outros povos.

O germânicos ocuparam toda a Península Ibérica por quase 300 anos e, embora as raízes das influências romanas tenham prevalecido, o vocabulário dos bárbaros contribuiu com muitas palavras que falamos em português hoje: guerra, brandir, gastar, esgrimir, luva, banir, bradar, escaramuça, franco, galope, roubar e trepar são alguns exemplos que mostram, quase sempre por meio da presença rascante do "r" ou "rr", a expressão da natureza violenta e selvagem das raízes germânicas no vocabulário daquele povo dominado cuja expressão falada originou o nosso português.

No século 8, os árabes chegaram à Península Ibérica depois de cruzarem os 14 quilômetros e meio do Estreito de Gibraltar, que separa o sul da Espanha do norte do Marrocos. A ocupação árabe teve início em 711, com a vitória na Batalha de Guadalete.

A Península Ibérica foi quase toda dominada, e os árabes só não exerceram influência sobre as regiões montanhosas da Cantábria e das Astúrias, no extremo norte da Península, onde um pequeno reino católico de resistência se estabeleceu.

Nas Astúrias, uma caverna abrigava o rei e servia como templo de Cristo. Os cristãos desciam as montanhas de repente para atacarem os acampamentos árabes nas planícies. Esses ataques deram origem à Guerra da Reconquista, e foram empurrando os árabes de volta para o sul, até a expulsão total no século 15, em 1492.

Caverna que abrigou os cristãos nas Astúrias, localizada em Covadonga, ao noroeste da Espanha. Os cristãos levaram com eles uma imagem da Virgem Maria na ocasião em que se refugiaram na caverna. A vantagem numérica dos árabes não lhes adiantava muito, pois era difícil penetrar na estreita entrada da gruta ...

Durante a batalha, diz a lenda que houve um terremoto e parte da montanha desabou, soterrando um terço dos árabes em combate. O triunfo em Covadonga, no ano de 718, foi a primeira vitória do cristianismo ibérico sobre os árabes invasores, e marcou o início da formação da Espanha. No local da entrada da caverna, há atualmente um santuário dedicado à Virgem das Batalhas.


Foram quase 7 séculos de ocupação árabe, período em que muçulmanos e cristãos conviveram juntos, mas não se misturaram, principalmente por causa da diferença religiosa. O Romanço permaneceu falado pelos cristãos, embora os árabes tenham influenciado na formação da língua portuguesa com muitas palavras: alambique, álcool, alfaiate, azul, armazém, fatia garrafa e xarope são algumas delas.

Outro sinal marcante da cultura árabe presente na Península pode ser observado nos tradicionais panos que as portuguesas usam sobre a cabeça durante suas danças folclóricas lusitanas. A viola e o pandeiro trazidos pelos portugueses e tão abrasileirados por aqui posteriormente, também têm origem na presença da cultura árabe na Península Ibérica.



Além da influência na formação da língua portuguesa, os traços da cultura árabe podem ser notados na vestimenta e ...



na dança do folclore português



Outra marcante influência árabe na Península Ibérica pode ser observada na arquitetura, como neste prédio à direita da foto, localizado em Toledo, na Espanha e ...


nesta ponde em Alcântara, também na Espanha



O francês Henrique de Borgonha atuou de forma intensa e significativa na Reconquista, liderando a expulsão dos árabes do Reino da Galiza, que tinha o norte de Portugal em suas terras. Por isso, o rei de Leão e Castela, Afonso VI, presenteou o infante francês com a mão de sua filha Catarina de Aragão e as terras do Condado de Portucale, que deu origem ao território atual de Portugal.

Falado por grupos étnicos com tradições e costumes tão diferentes dentro da Península, o Romanço sofreu variações e adaptações distintas em muitas regiões, dando origem ao galego-português, onde hoje é Portugal, e ao castelhano em toda Espanha, com exceção do nordeste daquele país, onde se fala o catalão, que é bem parecido com o castelhano, mas definido como uma expressão lingüística à parte.

A expansão marítima portuguesa em busca de novos pólos para comércio teve início no século 15, e difundiu a língua falada em Portugal por países de todo o mundo, como Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissal e até Macau, na China.

No Brasil, a língua portuguesa ainda recebeu a influência dos dialetos falados pelos escravos africanos, de onde derivam palavras como moleque e quitanda, entre outras.O tupi-guarani, falado pelos índios que aqui viviam, foi outro dialeto que contribuiu com palavras para o vocabulário português brasileiro: mandioca, mingau, guri e abacaxi são alguns exemplos.

O português falado no Brasil recebeu algumas influências não observadas em Portugal, o que ocasionou algumas diferenças em formas de expressão da língua falada nos dois países. Uma delas está no uso do nosso gerúndio (saindo, andando e subindo), que não é aplicado em Portugal, onde é dito estou a sair, estou a andar e estou a subir. Nós brasileiros costumamos dizer que vamos entrar no fim da fila; já os lusitanos caminham até o rabo da bicha, onde entram.

Nossa identidade, nossos costumes, nosso folclore, nossa culinária, nossa religião, nossos valores e nossa cultura em geral só existem graças a nossa rica língua portuguesa, que é o principal agente unificador, promotor e propagador de tudo o que é nosso, ou seja, nossas mais variadas expressões do dia-a-dia através dos tempos.


Cássio Ribeiro.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O GUARDIÃO DO FORTE ORANGE

Nossa história começa com um nome: José Amaro de Souza Filho; e uma sentença: 20 anos de prisão por homicídio, decretada em 1970.

Zé Amaro, como é conhecido na Ilha de Santa Cruz do Itamaracá, a 50 quilômetros de Recife, é pernambucano, mora, toma conta e cuida do Forte Orange, que é uma belíssima fortaleza construída pelos holandeses em 1631, um ano depois de invadirem Pernambuco.

A história de Zé Amaro se liga a do Forte Orange de forma muito curiosa. Levado à Casa de Detenção do Recife, em 1970, para começar a cumprir sua pena por homicídio, Zé, que nunca tinha ido à escola, aprendeu a ler e escrever com outro detento na prisão.

Depois de um ano preso, a Casa de Detenção do Recife foi fechada e Zé Amaro transferido para a Penitenciária Agrícola de Itamaracá (P.A.I), em 1971.

Como era um prisioneiro com bom comportamento e apresentava senso de cooperação, além de desempenhar a atividade artesanal entalhando peças de madeira, Zé Amaro foi selecionado junto com outros 39 presos para formar uma equipe de limpeza do Forte Orange, que seria restaurado pelo Exército Brasileiro entre 1971 e 1973.

Zé Amaro e os outros presos capinaram, tiraram o lixo e recolheram os cocos verdes da antiga fortaleza. Foi nessa ocasião, já no primeiro encontro com o Forte, que Zé Amaro apaixonou-se pela construção histórica: “Eu dizia a todo mundo que quando deixasse a cadeia eu ia morar no Forte e tomar conta dele. Fiquei encantado. Naquele dia resolvi que faria de tudo para passar o resto da vida no Forte”, relembra Zé Amaro.

Na ocasião do primeiro encontro com o Forte Orange, Zé Amaro fez uma promessa para Nossa Senhora da Conceição: se fosse possível viver ali, passaria um ano acorrentado a uma bola de ferro.


Zé Amaro: amor ao Forte Orange à primeira vista


Três anos depois, em 1974, a promessa de Zé Amaro parecia ainda não ter surtido efeito. O detento foi transferido de presídio e seu contato com o Forte Orange foi interrompido. Sendo assim, Zé Amaro dedicou-se exclusivamente ao artesanato, fabricando peças entalhadas em madeira.

Os trabalhos artísticos e o bom comportamento mais uma vez renderam ótimas referências de Zé Amaro com as autoridades policiais.

O Preso foi convidado para participar de uma exposição artística no Paraguai, ainda na década de 70: “Eu fui o primeiro preso a sair do Brasil sem escolta”, conta Amaro, que na ocasião da viagem enfrentou protesto de outros detentos, que apostaram que Zé não voltaria mais ao Brasil.

Porém, ao fim da exposição paraguaia, Zé Amaro voltou ao presídio motivado a continuar o trabalho artístico com esculturas. Passou a ensinar a arte de esculpir e entalhar madeira a outros detentos. Algumas pessoas doavam madeira para que ele pudesse desenvolver as oficinas e a criação das peças que foram exibidas em várias exposições pelo Brasil.

Com a atividade artesanal e os trabalhos com os outros presos, Zé Amaro conseguiu obter das autoridades a redução de sua pena e, após ficar preso 8 dos 20 anos totais de sua sentença, adquiriu a liberdade condicional, em 1978.

Com a liberdade, Zé Amaro viu novamente vivo o sonho de viver no Orange. Pediu permissão ao Exército para morar no Forte, e se comprometeu a limpar e restaurar a fortaleza dentro das limitações de seus recursos próprios.

A permissão para viver no Orange foi concedida, porém, a nova moradia, sem água encanada, energia elétrica e estrada de acesso, não apresentava um mínimo de conforto.

Zé Amaro encontrou um depósito de lixo a céu aberto, que servia de esconderijo para marginais. No meio da sujeira, Zé achou uma antiga bala de ferro usada pelos holandeses nos canhões que repeliam as embarcações que se aproximavam da costa de Pernambuco.

A promessa feita para Nossa Senhora da Conceição pôde ser paga. Com o auxílio de um tipo de algema e uma corrente, Amaro prendeu a bala de canhão pouco acima do tornozelo direito, e a arrastou por um ano, até que conseguiu limpar todo o Forte Orange: “Na ilha, todos me chamavam de maluco do forte, de doido. O povo achava que eu era um fantasma. Eu vivia como um ermitão. Sofri muito preconceito; além de ‘maluco’, eu era ex-presidiário”, recorda Zé Amaro.

Amaro tinha apenas uma enxada para limpar o matagal. Aos poucos, as ruínas foram novamente ganhando jeito de monumento histórico de verdade.

A recuperação do Forte Orange era financiada com o dinheiro das vendas das peças de madeira e das esculturas produzidas nas oficinas que Zé Amaro continuou realizando com os amigos presos, mesmo depois de ter saído da cadeia.

A renda gerada pela venda do artesanato era modesta, porém, suficiente para ser aplicada na iniciativa de restauração do monumento histórico.

Depois do Orange limpo e sem a bala de canhão amarrada ao pé, Zé Amaro sentiu a necessidade de arrecadar recursos para uma restauração mais profunda na fortaleza histórica, e foi à Brasília: “Era 1991, mas o presidente Collor não me recebeu e seus assessores não deram ouvidos ao que eu disse”, afirma Zé Amaro, que não desistiu, e foi à embaixada da Holanda, onde foi orientado a criar uma fundação.

Em 1994, Zé Amaro e a esposa Gilsilene Souza abriram a Fundação Forte Orange: “Com a Fundação, o governo holandês liberou um dinheiro e o Forte pôde ser restaurado por inteiro, com a construção de banheiros e do portão”, diz Zé Amaro.

Em 1996, apesar de ter concretizado seu sonho, Zé Amaro passou a viver um tormento. O Instituto Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Prefeitura de Itamaracá decretaram o Forte patrimônio nacional e Zé Amaro foi despejado do local, então já aberto à visitação pública.

Zé Amaro não desanimou e foi ao então ministro da Cultura, Francisco Weffort, e relatou sua história: “Quando terminei de falar, ele me deu a autorização para continuar a trabalhar no forte e me ofereceu uma casinha ao lado da fortaleza, onde moro até hoje. A casa é até jeitosa, mas do meu gosto eu queria estar lá dentro do forte”, afirma Zé Amaro.




Construído em 1631, o Forte Orange também serviu como prisão de frades portugueses avessos à implantação do calvinismo holandês no nordeste brasileiro. Com a expulsão dos holandeses de Pernambuco em 1654, o Forte foi reformado pelos portugueses para proteger a cidade vizinha de Igaraçu. Os lusitanos também rebatizaram o forte com o nome de Fortaleza de Santa Cruz do Itamaracá, porém, o novo nome nunca pegou, tendo o nome dado pelos holandeses, Forte Orange, permanecido até os dias atuais.


No interior do Forte, há uma loja de venda dos artesanatos feitos por Zé Amaro. Há também uma capelinha e um museu com verdadeiras relíquias encontradas em escavações no local. São peças dos tempos das ocupações holandesa e portuguesa (balas de canhão, crucifixos e artefatos de ferro). Para chegar à ilha de Itamaracá (“pedra que canta” em tupi) o visitante deve seguir pela BR-101 no sentido norte até Igaraçu. A partir daí, pega-se a estrada PE-35. A ilha é ligada ao continente por uma ponte sobre o rio Jaguaribe, e fica a 50 quilômetros de Recife. O Forte fica aberto diariamente, das 8h às 17h.

Deitado em uma rede armada embaixo da sombra de um pé de jamelão plantado por ele mesmo, Zé Amaro, que é conhecido na ilha como “O Guardião do Forte”, controla os barraqueiros e fiscaliza o turismo ao redor do Orange, além de tomar conta do mangue e se exaltar com quem joga lixo onde não deve.

Depois da ordem de despejo, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) deu a Zé Amaro uma medalha de honra ao mérito, em dezembro de 2002.

Zé Amaro, que dos 65 anos de vida dedicou 29 para cuidar do Forte Orange, confessa a vontade de viver muito tempo ainda no local. Ele diz que em suas orações pede para não morrer logo a fim de poder continuar tomando conta da fortaleza e viver na ilha de Itamaracá: “Eu não posso me separar da ilha porque sou uma parte do Forte Orange. Eu sou uma pedra do Forte e não posso sair dali. Escolhi a ilha para morar e com fé em Deus vou viver muitos anos ali. Dei minha vida para aquele lugar e não me arrependo. Faria tudo de novo sem pestanejar”, afirma Zé Amaro.

A trajetória do ex-presidiário Zé Amaro, que virou símbolo da preservação do patrimônio histórico no Brasil e tem três filhas: Sol, Marte e Vega, é retratada no documentário ‘Orange de Itamaracá’, de Marcio Câmara e Franklin Júnior.


Cássio Ribeiro

Críticas e sugestões: e-mail zzaapp@ig.com.br e orkut http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=18423333339962056517

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O FERRO: DA MINA AO ALTO-FORNO

O ferro é um dos elementos mais abundantes da superfície de nosso planeta. É encontrado em quantidade inferior apenas ao oxigênio, ao silício e ao alumínio. Porém, entre esses quatro elementos mais abundantes da Terra, o ferro é o que possui maior importância nas aplicações industriais e maior índice de produção.

O ferro também possui a particularidade de ser o metal pesado geralmente mais barato, apesar de algumas de suas raras ligas serem mais caras que o próprio ouro.

Quando quimicamente puro, o ferro não é utilizado nas atividades industriais, por ser muito flexível e apresentar oxidação com extrema facilidade. O ferro é empregado nas indústrias sempre em liga com outros elementos, principalmente com o carbono, cuja composição nas ligas de ferro varia de 0,0008% a 6,4%.

As ligas de ferro e carbono, comumente chamadas de minério de ferro, são de grande importância nas atividades das indústrias, sendo muito empregadas na metalurgia.


O minério de ferro
As minas fornecedoras de minério de ferro são de dois tipos: (a céu aberto) e (em galeria). As minas a céu aberto exploradas com mais facilidade, pois possibilitam o emprego de grandes máquinas escavadoras, que diminuem o custo de exploração e favorecem maior rendimento ao trabalho.

Já a exploração das minas de galeria exige o emprego de técnicas especiais de operação, além da construção de caras instalações auxiliares para a extração, como sustentação de arcada dos túneis, elevadores e sistemas de iluminação artificial e ventilação. No Brasil, que possui a sexta maior reserva de minério de ferro do mundo, a maioria das jazidas é a céu aberto.


Mina de galeria e ...

mina a céu aberto, mais comumente encontrada no Brasil

O ferro é extraído das minas e levado para as siderúrgicas, onde recebe o primeiro tratamento industrial. Nas minas em galeria, o material extraído é transportado das regiões subterrâneas até a superfície por meio de pequenos vagões que correm por estreitos trilhos, ou através de correias transportadoras, que são um tipo de esteira que corre levando o ferro até o exterior da mina.



Transporte do minério de ferro em pequenos vagões e ...

em esteiras móveis
A escolha da região para a construção de uma usina siderúrgica obedece certas condições que são: proximidade das vias de transporte (ferrovia ou rodovia) utilizáveis para o abastecimento de matérias-primas e combustível (carvão vegetal) necessários ao funcionamento da siderúrgica, como também para a distribuição dos produtos acabados aos centros consumidores.

Porém, o fator mais importante observado no ato da escolha do local para a construção de uma siderúrgica é ligado diretamente a questões políticas e econômicas, que possibilitarão o desenvolvimento da região escolhida.

É o conjunto desses fatores que determina a instalação das siderúrgicas geralmente longe das regiões onde ficam as minas de extração do minério de ferro, como é o caso da usina da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), localizada em Volta Redonda, no RJ, e fundada pelo presidente Getúlio Vargas durante o Estado Novo, em 1941. As minas de ferro que abastecem a CSN ficam em Congonhas e Arcos, no estado de Minas Gerais. Já o carvão vegetal usado na CSN é trazido de Siderópolis, em Santa Catarina.


Dois momentos da CSN: no antigo registro fotográfico acima e ...



atualmente, ao fundo no plano da foto
A CSN é hoje a maior indústria siderúrgica do Brasil e da América Latina, sendo também uma das maiores do mundo, com uma produção de 6 milhões de toneladas de aço bruto e 5 milhões de toneladas de laminados por ano. A CSN pertenceu ao Governo Federal até 1993, quando foi privatizada pelo Programa Nacional de Desestatização, posto em prática durante os governos dos ex-presidentes Fernando Collor e Itamar Franco.

Quando uma usina siderurgia fica localizada no litoral, as matérias primas necessárias para o seu funcionamento são transportadas e chagam por meio de navios. No terminal, imensos guindastes descarregam grande quantidade de minério de ferro diariamente.

O ferro é retirado dos navios e posto sobre uma série de longas esteiras transportadoras que o levam até depósitos ao ar livre, onde fica até ser utilizado. Uma usina siderúrgica instalada perto dos terminais, ou próxima das minas de extração do ferro, oferece vantagens econômicas em relação a uma indústria mais afastada, já que sempre o esquema que reduz as operações de transporte e manuseio do minério de ferro é o economicamente mais rendoso.

Para que o ferro extraído da mina tenha melhor aproveitamento possível, é necessário que os pedaços de minério bruto sejam, no máximo, pouco maiores que o tamanho de um punho fechado. Sendo assim, o minério é fragmentado em um britador e depois classificado de acordo como tamanho dos pedaços.

Os maiores são fragmentados outra vez, a fim de ficarem do tamanho padrão desejado. Já os menores, que impediriam a circulação do ar e dos gases nos fornos, são unidos termicamente formando aglomerados do tamanho ideal para a utilização nos fornos.

Antes de ser levado ao alto-forno, o minério de ferro é aquecido a seco, no processo conhecido como calcinação, para que sejam eliminadas algumas substâncias que dificultam o processamento siderúrgico e contaminam o produto final. Tais substâncias são o enxofre, o arsênio, a água e o anidrido carbônico. Depois da calcinação, o minério de ferro está pronto para ser levado ao forno da siderúrgica.

No forno, para derreter o minério de ferro, é utilizado carvão mineral que, por ser barato e abundante, é um dos combustíveis fósseis mais utilizados em nosso Planeta, junto com o petróleo e o gás natural, cujas queimas são as maiores responsáveis pelo aquecimento global e pela liberação de gases poluentes na atmosfera.

O carvão mineral é o resultado da lenta decomposição de animais e plantas durante milhares de anos, e é encontrado nas cores preta ou marrom, sendo extraído do subsolo por meio de processos de mineração.


O carvão mineral


Antes de ser usado para aquecer os fornos das siderúrgicas, o carvão mineral deve ser tratado para perder algumas impurezas como o enxofre, e ganhar resistência para enfrentar as pressões elevadas do processo de derretimento do minério de ferro sem se romper.

Produtos resultantes após os processos industriais realizados sobre o minério de ferro

O carvão deve suportar o peso do minério que é colocado sobre ele, além de fornecer o calor e os gases necessários ao derretimento do ferro. Dessa forma, o carvão mineral garante a passagem dos gases e do ar, imprescindíveis à combustão no alto-forno. Depois de derretido, o ferro poderá ser empregado na produção do aço e dos mais variados elementos que origina no meio industrial.


Cássio Ribeiro.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

A VIDA DAS ABELHAS

As abelhas têm seu período médio de vida determinado pelas atividades que exercem dentro de sua comunidade. Esse período também depende da época do ano em que ocorre o nascimento das abelhas de uma colméia.

A sociedade das abelhas é rigorosamente harmoniosa, organizada e dividida em duas castas, uma reprodutora e a outra estéril. A casta reprodutora é formada pelas rainhas e os zangões.

A rainha é responsável apenas pela postura dos ovos, e é o indivíduo da colméia que possui a vida mais longa, chagando a viver até cinco anos. Já o zangão, possui a única função de fecundar a rainha, e vive apenas cerca de 80 dias.

A casta estéril é formada pelas abelhas operárias, que possuem o aparelho genital atrofiado, mas são equipadas e próprias para os vários trabalhos de construção, manutenção e alimentação da colméia.

A vida das abelhas operárias dura entre quatro e oito semanas, de acordo com a época de seu nascimento. Elas vivem mais quando nascem no outono, pois precisam esperar pelas abundantes flores que surgirão na primavera.

Na sistemática classificação do reino animal, as abelhas são insetos divididos em várias espécies: lingustica, carnica, sivula e unicolor. Porém, a palavra abelha é geralmente usada para indicar a abelha doméstica, cujo nome científico é Apis Melífera Ligustica.

A raça Apis Melífera Ligustica


As várias raças de abelhas apresentam diferenças marcantes, tanto no comportamento quanto na forma, mas sempre há um ponto comum, que é a administração de suas colméias.

Todas as espécies vivem em grupos familiares formadores de sociedades que duram vários anos, e são regidas pelo poder feminino, sendo as componentes de uma determinada colméia sempre provenientes de uma única fêmea rainha.

As abelhas operárias são menores que as reprodutoras (rainha e zangão). Sua forma é diretamente ligada às atividades que devem realizar durante a vida. As operárias executam trabalhos diferentes que se modificam com o passar do tempo, sendo o envelhecimento, assim como nos humanos, um motivador do aumento gradativo de sua experiência e um determinador de suas mudanças de atividade.


Jovem abelha produzindo alimento
Durante os cerca de 80 dias de sua existência, a abelha operária passa pelas seguintes fases de vida que determinam suas atividades: os ovos da rainha “amadurecem” durante três dias. Surge então uma larva sem patas, que se alimenta ativamente, fazendo de 1000 a 1300 refeições diárias.

Toda essa intensa alimentação faz a larva aumentar seu peso em cinco vezes só nas primeiras 24 horas de vida. Seis dias depois de deixar o ovo, a larva, que ainda vive no alvéolo (célula onde a rainha põe seus ovos na colméia) fecha-se num casulo de seda. Começa a chamada fase crisálida, que é o estágio de 12 dias em que a larva se transforma em um inseto prefeito, atingindo sua forma adulta e definitiva.

Nos próximos 14 dias, a jovem abelha operária desempenha sua primeira função dentro da colméia, que é a de produzir alimento para a rainha, os zangões e as novas larvas. Só depois desse período inicial de trabalho dentro da colméia, a operária sai para procurar alimento, tornando-se assim uma abelha coletora.

A fase coletora de uma abelha dura cerca de 7 dias apenas. Depois desse período, as operárias entram na idade senil e voltam a trabalhar dentro da colméia, realizando as atividades que necessitam de mais experiência para serem executadas (produção de cera, construção de favos e alvéolos, limpeza, proteção da entrada e ventilação da colméia). Em caso de necessidade, as operárias senis podem voltar a coletar alimentos.


Como coletora, cuja função é desempenhada num breve período de 7 dias durante a vida e ...


na última fase da vida, mais maduras e experiêntes, construindo e cuidando da colméia

A abelha rainha tem como função exclusiva a procriação, e pode produzir entre 1500 e 2000 ovos por dia. Possui, portanto, o maior tamanho corporal; tem abdome grande e alongado em forma de cone. Suas asas não cobrem completamente o abdome e são maiores que as asas das abelhas operárias.

O aparelho bucal da rainha não a possibilita produzir cera, geléia real e coletar pólen como as abelhas operárias. Durante a vida, que pode chegar a cinco anos, a rainha só sai da colméia para o vôo nupcial, que ocorre entre o 5º e o 7º dia de sua vida. Sua alimentação durante a vida é constituída exclusivamente de geléia ou gelatina real, produzida pelas glândulas situadas sob a faringe das abelhas operárias em sua fase jovem de vida, na qual desempenham a função alimentadora.



Dois momentos da rainha: apontada em destaque entre população da colméia e ...



rodeada por várias operárias durante a ovulação


Os zangões, que podem viver em média entre 40 e 60 dias, têm o corpo de tamanho médio, não tão grande quanto o das rainhas e nem tão pequeno quanto o das operárias. As asas dos zangões são geralmente do tamanho do abdome, que é mais curto e grosso em relação ao das fêmeas.


operária à esquerda, zangão à direita e a rainha ao centro, com corpo maior e mais alongado


Os olhos dos zangões são bem desenvolvidos, porém, eles não tem características físicas que os possibilitem alimentar-se sozinhos ou desempenhar algum trabalho dentro da colméia.

Os zangões são fortes, mas são inúteis para a vida em comunidade. Não possuem ferrão, glândulas para a produção de mel e coletor de néctar. A única função dos machos é fecundar a rainha virgem, mas morrem logo após a cópula. Quando se separa do zangão, a rainha arranca os órgãos genitais e parte dos intestinos do macho.


Os zangões são úteis apenas no período que vai do fim da primavera ao verão, quando as fecundações acontecem. O machos que não fecundam, e por isso não morrem no ato da cópula com a rainha, são abandonados fora da colméia e eliminados pelas abelhas operárias.


Momento em que um zangão é eliminado por um grupo de operárias



As colméias possuem um número médio e constante de indivíduos de acordo com as necessidades de manutenção das mesmas. Por exemplo, uma colméia média é formada por cerca de 100 zangões, uma abelha rainha e 60 mil abelhas operárias.

A atividade em uma colméia acontece com maior intensidade durante o dia, quando a luz solar garante uma maior quantidade de flores abertas nas plantas, sendo assim bem mais farta a oferta de pólen e néctar na natureza. Também há atividade nas colméias à noite, embora seja bem menos intensa que durante o dia.

Embora as abelhas coletoras tenham como principal atividade a função de transportar pólen e néctar, também carregam bálsamos e própoles, que são substâncias pegajosas de cor escura derivadas de plantas resinosas. A própole é o material “cimentador” usado na construção dos favos e para tapar as fendas das colméias, além de cobrir os “cadáveres” de seres intrusos à colméia. Os bálsamos são usados para envernizar o interior dos alvéolos antes que a rainha deposite ali seus ovos.

Abelhas operárias fechando as células hexaédricas dos favos



Outro elemento de extrema importância para a manutenção da vida na colméia, e que também é transportado pelas abelhas coletoras, é a água, que é essencial para manter a temperatura amena na colméia, principalmente nos períodos mais quentes do ano.

Apesar de toda essa mobilização ativa na colméia, a coleta de pólen e néctar é sem dúvida a mais importante. É espetacular a atividade das abelhas operárias durante a coleta desses dois alimentos. Para uma abelha operária coletora completar uma carga de néctar, deve visitar cerca de mil flores.

Como a carga média transportada por uma abelha é de 5 miligramas por vez, e uma colméia chega a produzir cerca de 1 quilo de mel por dia durante a estação das flores, são necessários milhares de vôos realizados por cerca de 30 mil das 60 mil abelhas operárias de uma colméia.

A vida de uma colméia é definida por regras bem claras, e está diretamente ligada à manutenção da sobrevivência da espécie. A rainha exerce influência sobre todas as outras abelhas de sua colméia por meio de uma secreção glandular que cobre todo o seu corpo.

As abelhas operárias distribuem, de boca em boca, essa secreção glandular para todos os indivíduos da colméia. A substância química distribuída informa que a rainha está viva para todas as abelhas.

Caso a rainha morra, ou o número de indivíduos de uma colméia cresça ao ponto de a rainha não conseguir mais produzir a secreção glandular em quantidade suficiente para “marcá-los” todos, é necessário substituir a rainha. As abelhas alimentadoras escolhem e preparam algumas larvas entre as quais será escolhida uma nova rainha.

No caso de uma velha rainha morrer, a escolha da nova rainha será rápida e garantirá a sobrevivência da colméia. Já no caso da rainha permanecer viva, mas sua secreção glandular ser insuficiente para todos os indivíduos de sua colméia, haverá uma disputa mortal pelo trono entre as novas rainhas candidatas. Nesse caso, a velha rainha deixará a grande colméia para a vencedora e, acompanhada por algumas operárias que lhe serão fieis, sairá em busca de outro lugar adequado para construir uma nova colméia.

As abelhas também possuem capacidade de comunicação umas com as outras. Um curioso exemplo dessa comunicação é o clássico método de transmissão da informação sobre as fontes de alimentos encontrados pelas coletoras durante seus vôos de exploração.

Quando uma abelha coletora localiza uma nova fonte de alimentos, volta à colméia levando consigo pólen, néctar e perfume das flores do novo lugar que descobriu e visitou. A coletora inicia uma dança que permite às outras abelhas a localização das flores do lugar da nova fonte de alimentos.

A “dançarina” traça desenhos no ar com seus vôos e realiza movimentos de diferente intensidade com o abdome. Os movimentos fornecem às outras abelhas dados esclarecedores sobre a distância e a direção do novo lugar dos alimentos em relação à colméia.

O tipo de pólen e o perfume que trás consigo informa a espécie de flor da nova fonte de alimento. A intensidade, o ritmo e a cadência dos movimentos do abdome indicam a consistência, a distância e a direção do novo depósito de pólen e néctar descoberto.


Por meio de experiências realizadas, foi observado que uma abelha coletora indica, por meio de seus movimentos corporais, novas fontes de alimentos a até 3 quilômetros de sua colméia, com uma precisão de 50 metros. A “dança” também serve para informar a localização de locais adequados para a construção de novas colméias.


Após sua dança, a descobridora voa de novo para a nova fonte de alimentos, acompanhada por outras abelhas coletoras. Se no retorno dessa expedição ainda houver alimento abundante na nova fonte descoberta, uma nova viagem será realizada com um número maior de abelhas coletoras.

As coletoras são capazes de compreender a dança de abelhas da mesma espécie, mesmo que sejam de colméias diferentes. Porém, não existe comunicação entre operárias de espécies diferentes pois, embora todas as abelhas se comuniquem por meio de um mesmo tipo de linguagem corporal, o “dialeto” diferente de cada espécie torna a dança incompreensível entre espécies diferentes.

É prudente não incomodá-las!

As abelhas apresentam aspectos muito curiosos em relação à sua organização social e aos estudos dos mecanismos bioquímicos e fisiológicos exercidos pela rainha no controle de sua colméia. Fascinante também é a constatação de que as abelhas podem ser treinadas, tal como os roedores. Esse curioso inseto pode ser condicionado a apertar uma alavanca em grupo, ou realizar outra tarefa simples para obter alimento, uma solução de açúcar por exemplo.

Abelhas: frágeis sozinhas, fortes quando em grupo. Exemplo de organização social coletiva que, embora sejam irracionais, podem ter em diversos aspectos seus educados exemplos organizacionais adotados como modelo pelo racional ser humano.

Cássio Ribeiro.

Críticas e sugestões: e-mail zzaapp@ig.com.br e orkut http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=18423333339962056517

sexta-feira, 11 de julho de 2008

UMA GIGANTE BELA ADORMECIDA

Véspera do Natal de 1973. Os trabalhadores responsáveis pela manutenção da ferrovia que corta o Vale do Paraíba paulista embarcam em uma locomotiva GE-U6B, conhecida como “trinta”. São doze ferroviários e dois maquinistas que vão para a cidade de Queluz/SP receberem o pagamento do último mês do ano.

Escurece rápido e uma brisa quente toma conta do ar naquele início de noite de verão. Logo começa a cair uma forte chuva, que faz subir uma nuvem de vapor das pedras da linha férrea que foram aquecidas pelo tórrido sol daquele dia inteiro.

Após a chegada a Queluz, a locomotiva aguarda sob forte chuva com o motor ligado até o último ferroviário receber seu pagamento. Os trabalhadores voltam para a locomotiva e a pequena cabine acomoda novamente doze homens em pé entre as poltronas dos dois maquinistas.

Na volta, o maquinista fica preocupado com o volume de água da enxurrada e reduz a velocidade perto da famosa Curva do Roncador. Numa fração de segundos, os trilhos desaparecem sob a locomotiva que, descontrolada, tomba e cai na ribanceira.

A máquina pára perto das águas revoltas do rio Paraíba do Sul. Só não foi engolida pelo rio graças ao atrito com as pedras e a densa vegetação do local. A chuva forte levou as pedras que sustentavam os trilhos da linha e ocasionou o acidente. Por sorte todos sobreviveram, mas o saldo foi de costelas e clavículas quebradas. A locomotiva levou três dias para ser içada.

Histórias como essa compõem os 154 anos de ferrovias no Brasil, completos nesse ano (2008). Quando chegou ao Brasil na segunda metade do século 19 (1801-1900), a ferrovia era o principal meio de transporte de passageiros e carga, principalmente café.

Os trens marcaram o desenvolvimento de diversas cidades do interior, já que estabeleceram a ligação direta com as grandes capitais e com os portos de escoamento e chegada de mercadorias.

Durante o século 20, o desenvolvimento das rodovias fez o transporte ferroviário de passageiros em longa distância ser praticamente extinto no Brasil. No lugar dos trens, roubaram a cena os ônibus das diversas empresas que dividem o país em áreas de monopólio de atuação.

A situação das ferrovias ficou ainda pior após as privatizações realizadas no setor durante governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1996. As empresas privadas que arrendaram a malha ferroviária brasileira transportam apenas carga, como minério, bauxita, cimento, metais e combustível.

O último serviço ferroviário de transporte longo de passageiros em atividade no Brasil funciona no ramal patrocinado pela companhia Vale do Rio Doce, e liga Vitória, no Espírito Santo, à capital mineira Belo Horizonte.

Apesar dos cortes de funcionários após as privatizações, os ferroviários ainda sobrevivem. No trecho do Vale do Paraíba paulista, são transportadas até 11 mil toneladas de minério em uma só viagem. Apenas um maquinista opera três locomotivas que puxam cerca de 100 vagões carregados, que equivalem a 400 caminhões lotados.

No Vale do Paraíba paulista, os maquinistas trocam de turno na estação da pequena cidade de Roseira. No dia 17 de abril de 2005, às 15 hs, tive a agradável oportunidade de embarcar numa locomotiva cargueira em Roseira, a fim de produzir uma reportagem para o jornal Vale Repórter, que é feito pelos alunos do segundo ano do curso de Jornalismo da Universidade de Taubaté.

O maquinista Antônio Carlos, 21 anos de profissão, assumiu o comando das três locomotivas seguidas de vagões lotados: “Quando me aposentar, vou sentir falta da máquina, dos amigos e das viagens”, afirmou seu Antônio, já operando a locomotiva em movimento sobre os trilhos molhados pela fina chuva que caía naquela tarde.

O destino era Barra Mansa, no estado do Rio. Durante a viagem, as paisagens de campos verdes do fundo do Vale do Paraíba se alternavam com a invasão da locomotiva em meios urbanos. Ficou claro na ocasião, o romantismo centenário dos trens, que ainda hoje encanta as pessoas.

Nas cidades, todos paravam o que estavam fazendo para admirarem as máquinas e seus vagões carregados. Crianças corriam alvoroçadas querendo acompanhar a locomotiva, que apitava, como que querendo agradecer a atenção de todos.

A situação atual de grande parte das estações do Brasil é de completo abandono. Em Cachoeira Paulista, também no Vale do Paraíba paulista, é muito triste a situação da belíssima e grandiosa estação em estilo arquitetônico inglês do século 19.

Com 270 metros de comprimento, e área de 2770 metros quadrados, a bela construção é a segunda maior estação de todo o estado de São Paulo, menor apenas que a estação da Luz, na capital paulista.

Comenta-se na pequena e simpática Cachoeira Paulista, que o tamanho da estação foi o resultado da paixão do engenheiro que a construiu, o inglês Newton Benton, por uma cachoeirense. O engenheiro teria aumentado o projeto da estação, a fim permanecer mais tempo na cidade.

Sedução das cachoeirenses e memórias à parte, hoje a estação está praticamente em ruínas. Seus galpões, que armazenavam a produção de café de todo o Vale do Paraíba e serviram de quartel general para as tropas de São Paulo durante a Revolução Constitucionalista de 1932, hoje estão sem teto, portas e janelas.



Localização do município de Cachoeira Paulista, em vermelho, dentro do mapa do estado de São Paulo, em tom mais claro. A parte mais fina do mapa, abaixo e à direita, é o Vale do Paraíba paulista


Vista geral da belíssima e grandiosa estação de Cachoeira Paulista em 1982. São três torres: uma central e duas menores nas extremidades do prédio em estilo inglês do século 19. Não é fácil fotografar a estação desta posição, pois existe um morro à direita do plano da foto, e só uma estreita rua passa espremida bem em frente à estação, entre o morro e os trilhos


Torre central da estação em 1998. No final do século 19, a estação, além de ser parada da ferrovia, abrigava também a sede dos Correios e a Câmara municipal de Cachoeira Paulista

Outro registro de 1998. Portas, janelas, piso interior, escadas e telhados não existem mais



A estação em 2003. O custo da restauração é muito alto, e o município de Cachoeira Paulista precisaria encontrar uma forma de viabilizar o investimento, transformando o prédio num auto-sustentável gerador de recuros, como as estações da Luz e Júlio Prestes, localizadas na capital paulista

Vista da estação a partir da margem oposta do rio Paraíba do Sul, ao norte, em 1950. Na época (final da décade de 1940 e início da década de 1950) a cidade e a estação passaram a ser chamadas de Valparaíba e, posteriormente, o nome atual de Cachoeira Paulista foi definitivamente adotado

Foto de 2006. Com o desgaste do prédio, as tintas mais recentes vão sendo naturalmente removidas pelo tempo, e curiosamente deixam exposto novamente o antigo nome Valparaíba na parede da estação, oposta aos trilhos e voltada para o rio Paraíba do Sul


A gigante bela adormecida
Locomotiva biriba e seus vagões parados na estação de Cachoeira Paulista, em 1962

Visão interna da estação. Triste ruir da rica história cultural brasileira


No dia inauguração da estação de Cachoeira Paulista, em 8 de julho de 1877, o trem partiu às 6h15 do Rio de Janeiro sob rojões, hinos, discursos e festa. A cada estação, a festa se repetia, mas a locomotiva e seus vagões só pararam em Cachoeira Paulista.

Era preciso que os passageiros trocassem de trem, pois a linha que vinha do Rio de Janeiro e pertencia a EFCB (Estrada de Ferro Central do Brasil) tinha 1,6 metro de largura. A partir da estação de Cachoeira Paulista até São Paulo, a linha da EFN (Estrada de Ferro do Norte) possuía a chamada bitola métrica, com 1 metro de largura.

As cidades do Vale do Paraíba que ficavam à beira do trajeto dos trilhos que ligavam o Rio de Janeiro a São Paulo prosperaram e cresceram. As cidades mais afastadas, que antes da ferrovia eram prósperas, entraram em decadência e inspiraram o escritor de Taubaté, Monteiro Lobato, a escrever o livro “Cidades Mortas”.

O custo gerado pela necessidade dos passageiros e das cargas serem trocados de trens em Cachoeira Paulista, por causa da diferença de largura entre a linha que vinha do Rio de Janeiro e a que seguia para São Paulo, foi um dos fatores que influenciou na decadência do cultivo do café no Vale do Paraíba paulista. A largura entre as linhas só foi igualada em 1908, ocasião em que todo o trajeto da ferrovia entre Rio e São Paulo passou a ter só uma linha com 1,6 metro de bitola.

Senhora de 154 anos, a ferrovia ainda sobrevive no Brasil, garantindo com o transporte de carga o emprego de bravos ferroviários. Mas assim como assistiu diversas vezes seus trilhos serem levados pelas chuvas torrenciais, assiste hoje, a cada curva e na maioria de suas estações, sua história viva ser levada pelo descaso, o abandono e o tempo.
Cássio Ribeiro

domingo, 6 de julho de 2008

A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932

A Revolução Constitucionalista de 1932 foi, na verdade, uma resposta de São Paulo à Revolução de 1930, através da qual Getúlio Vargas chegou ao poder acabando com a República Velha. Getúlio foi apoiado pelos tenentes do movimento Tenentista que sacudiu o Brasil com tentativas de golpes e a promoção de revoltas nos quartéis na década de 20.

Até 1930, a organização social brasileira girava basicamente em torno dos moldes agrários, e o cenário político nacional era marcado pela alternância entre paulistas e mineiros na presidência da República, configurando a chamada República do Café com Leite, que é o outro nome pelo qual a República Velha ficou conhecida.

Alguns historiadores afirmam que a Revolução de 1930 marcou a entrada do Brasil no século 20, já que a chegada de Getúlio Vargas ao poder determinou uma mudança dos moldes rurais para uma industrialização nunca vista antes em nosso país.


Pela Constituição de 1891, cada estado brasileiro tinha autonomia política e independência econômica. São Paulo era, graças à abundante produção de café dos séculos 18 e 19, o estado mais rico do Brasil. Getúlio Vargas chegou ao poder com a Revolução de 1930 e estabeleceu um poder federal centralizado, voltado para a implantação de mudanças no campo social, político e econômico do Brasil.


Getúlio Vargas em foto histórica da Revolução de 1930. Na mão esquerda, o inseparável charuto que virou uma marca registrada de Vargas


Mão suja de petróleo. Vargas ainda hoje divide opiniões: para uns, um incansável pai dos trabalhadores; para outros, um impiedoso e sanguinário ditador

Para garantir essa centralização do poder em suas mãos, Vargas nomeou um interventor federal em cada estado brasileiro. Cada interventor era leal politicamente ao governo federal.

Quando passou por São Paulo em 1930, vindo do Rio Grande do Sul em direção ao Rio de Janeiro para ocupar o Palácio do Catete, que era a então sede do governo federal, Getúlio Vargas entregou o controle estadual paulista ao coronel pernambucano João Alberto, que era mais um simpatizante do movimento Tenentista. João Alberto era considerado plebeu e forasteiro pelos paulistas.

O subjugo imposto por Vargas a São Paulo feriu o orgulho bandeirante e foi o primeiro erro político do presidente ditador, sendo o começo dos desentendimentos entre Getúlio e os paulistas.

Aos moldes de Vargas, São Paulo alegava estar representando uma locomotiva que puxava os outros estados brasileiros como vagões economicamente vazios. Por outro lado, Getúlio Vargas afirmava que antes da Revolução de 1930, os estados brasileiros eram como ilhas viradas umas de costas para as outras.

Foi diante desse impasse caracterizado pelo choque entre interesses, que São Paulo exigiu o retorno da Constituição de 1891, buscando uma volta legal às suas condições política e econômica independentes e anteriores a Getúlio. Daí se deu a explosão da chamada Revolução Constitucionalista de 1932.

Largo do Patriarca, São Paulo. É 23 de maio de 1932 e uma multidão irada ocupa as ruas desde o dia anterior, protestando contra a visita de Oswaldo Aranha, que é o então ministro da fazenda de Getúlio Vargas. É a segunda vez no mesmo ano que o povo pára a cidade, já que 100 mil pessoas tinham tomado conta das ruas durante um comício realizado na Praça da Sé, em 25 de janeiro, dia do aniversário de São Paulo, para exigirem a autonomia política e econômica do estado e o retorno da Constituição de 1891.


Mobilização massiva dos revoltados paulistas em 1932



O ódio, o desprezo e a sensação de estarem sendo insultados são sentimentos generalizados entre os paulistas. A elite e a classe média se vêem prejudicadas pela quebra da autonomia estadual imposta pelo centralizador Getúlio Vargas. Só a classe operária parecia estar ao lado do presidente paternalista.

A Associação Comercial também aderiu ao movimento de revolta que fermentava nas ruas. Lojas e casas de negócios fecharam suas portas. Um cronista da época escreveu: “Multidões empunhavam bandeiras de São Paulo e do Brasil e vagueavam desencontradamente, com gritos de hurras cívicos. Oradores assomavam-se às janelas. ‘Os paulistas não podem permitir a suprema afronte’, gritava um”.

A multidão era imensa na noite daquele 23 de maio de 1932. A Praça da República estava tomada por uma intensa agitação, e alguém teve a idéia de invadir sede da Legião Revolucionária, que era uma entidade tenentista que apoiava Getúlio Vargas.

A massa humana revoltada foi até a porta do prédio da Legião e começou a forçar a entrada para a invasão. Os legionários aguardavam e, de armas em punho, abriram fogo contra a multidão invasora. A dispersão dos invasores em pânico foi imediata, mas quatro corpos sem vida ficaram estirados no chão: eram os jovens Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo.


Os jovens Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, cujas mortes foram o motivo que faltava para o início da Revolução Constitucionalista de 1932


Os quatro rapazes mortos foram o estopim para o início da Revolução Constitucionalista de 1932. Os industriais, a classe média e os cafeicultores de São Paulo estavam unidos na oposição a Getúlio Vargas, que enfrentaria a primeira revolta contra seu governo.

As reivindicações de São Paulo contra Getúlio Vargas ganharam, no início, apoio de outros estados. Quando o Partido Democrático de São Paulo rompeu com o pernambucano João Alberto, que era o interventor federal imposto por Getúlio Vargas, o Partido Libertador Gaúcho manifestou apoio aos paulistas.

O Exército Brasileiro demonstrou apoio a São Paulo nos primeiros momentos da oposição a Vargas, já que havia a preocupação de que a presença dos tenentes como interventores federais nos estados pudesse comprometer e inverter a ordem da hierarquia militar.

O veterano general Isidoro Dias Lopes (1865-1949) se indispôs com Getúlio Vargas devido a divergências relativas ao comando político do estado de São Paulo. Dias Lopes conseguiu, no Rio de Janeiro, apoio do coronel Euclides de Oliveira Figueiredo entre outros.

Em São Paulo, o general Dias Lopes contava com o apoio de grande parte dos oficiais do Exército e, no Mato Grosso, o comandante da região militar daquele estado, general Bertholdo Klinger, também afirmou apoio à causa paulista.


O interventor federal Flores da Cunha, nomeado por Getúlio Vargas para representar o poder federal no Rio Grande do Sul, também jurou apoio a São Paulo. Minas Gerais não aderiu à posição revolucionária paulista, porém, garantiu neutralidade em caso de combate armado entre São Paulo e as forças federais de Getúlio Vargas.

Estava tudo pronto para começar a Revolução Constitucionalista de 1932, e a data marcada inicialmente foi 14 de julho, aniversário da queda da Bastilha na França. Contudo, alguns fatos não aconteceram exatamente conforme o planejado.

O general Bertholdo Klinger, que comandaria 5 mil homens vindos do Mato Grosso para apoiar São Paulo, teve um desentendimento com o ministro do Exército e foi afastado do comando da região militar de Mato Grosso, sendo aposentado da carreira militar.

Com esse acontecimento, o coronel Euclides de Figueiredo viajou às pressas do Rio de Janeiro para São Paulo, na noite de 8 de julho. Na manhã de 9 de julho de 1932, Euclides decidiu junto com alguns líderes políticos paulistas, iniciar antecipadamente a Revolução Constitucionalista. Euclides de Figueiredo era pai do general João Batista de Oliveira Figueiredo, que foi o último presidente da República durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).


Os comandantes constitucionalistas: general Isidoro Dias Lopes, na foto acima, ao centro ...

coronel Euclides de Figueiredo ...


e o general Bertholdo Klinger



Na noite do dia 9 de julho, tropas da força pública de São Paulo (atual PM e bombeiros paulistas) invadiram quartéis, a companhia telefônica, estações ferroviárias e o prédio dos Correios. As invasões foram realizadas sem nenhuma resistência e, sem que um tiro sequer fosse disparado, a cidade de São Paulo caiu nas mãos dos revolucionários constitucionalistas comandados por Isidoro Dias Lopes e Euclides de Figueiredo.

Logo de início, São Paulo contou com algumas surpresas não esperadas. O interventor federal gaúcho Flores da Cunha decidiu não apoiar mais os paulistas bem no momento em que a revolução teve início, e escolheu permanecer leal a Getúlio Vargas.

Um dos gaúchos mais famosos da época, Lindolfo Collor, que também foi o primeiro ministro do Trabalho do Brasil, produziu um manifesto acusando Flores da Cunha de traição. Eis um trecho do manifesto: “Foi na terra que tem a lealdade por emblema e erige o cumprimento da palavra empenhada no mais elementar dos deveres de honra, foi no Rio Grande do Sul que o crime se consumou. O Rio Grande faltou à sua palavra”.


O interventor federal gaúcho Flores da Cunha, terceiro da esquerda para a direita

Outro estado que na hora “H” virou-se contra São Paulo foi Minas Gerais. Mesmo prometendo neutralidade, Minas formou fileiras ao lado de Getúlio, e permitiu que seu território, que faz divisa com São Paulo ao sul e ao oeste, fosse usado pelas tropas federais de Vargas no combate aos paulistas.

Mesmo assim, a população de Minas Gerais, principalmente ao sul, esteve solidária aos paulistas. A cidade sul-mineira de Ouro Fino foi a primeira a aderir oficialmente à causa paulista. No dia 10 de julho, o prefeito da cidade lançou um manifesto público convidando a população para apoiar a causa constitucionalista de São Paulo.

O lema da população sul-mineira era: “Tudo por São Paulo”. Um velho fazendeiro se expressou dessa forma na ocasião: “Tudo quanto possuímos, desde a panela de alumínio até os sapatos, vem de São Paulo. Qualquer mercadoria é de origem paulista. Podemos nós marchar contra o verdadeiro Brasil? Ele tem recursos inesgotáveis, possui fábricas, maravilhosa rede de estrada de ferro, inúmeras estradas de rodagem, comércio florescente e inigualável, lavoura de primeira, cultura super, civismo, valor! Contra um estado nessas condições é impossível guerrear. Podem mandar tropas à-vontade, pois os paulistas vencerão fatalmente. A História ensina que os povos mais civilizados são os que vencem e dominam”.


Na edição do jornal Folha da Noite, que circulou em 23 de julho de 1932, foi publicado o seguinte texto: “Os paulistas poderão avaliar a sinceridade do povo mineiro através do que passo a dizer. Em todas as estações, esquinas e casas comerciais foram fixados boletins assinados pelo sr. Olegário Maciel que, dizendo-se autorizado pelo governo central, convidava os prefeitos de todas as cidades a iniciarem o alistamento de 20 mil voluntários otimamente pagos, bem fardados, armados e com donativo no fim da campanha. Passada a primeira semana, notou-se uma coisa maravilhosa: nem um único homem se apresentou para ser “bem fardado, municiado, pago e premiado”. Desolados, os prefeitos mandaram arrancar a circular presidencial. Varginha, que é uma das maiores cidades mineiras, recebeu com verdadeira repulsa a ordem de Olegário Maciel”.

Mesmo sem o apoio oficial dos governos de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, que ficaram ao lado de Vargas, São Paulo, mesmo traído e sozinho, deu prosseguimento à revolta que acabou se configurando como o maior conflito armado entre brasileiros ocorrido em todo o século 20.

O General Bertholdo Klinger, mesmo afastado do Exército, chegou à capital paulista no dia 11 de julho para assumir o comando das tropas revolucionárias constitucionalistas. Klinger foi recebido calorosamente pela multidão, e discursos foram proferidos. O grande orador da causa constitucionalista, Ibrahim Nobre, falou na ocasião da recepção do general Bertholdo Klinger: “Conduza-nos general. Leve-nos à vitória para que o Brasil possa viver livre e voltar ao trabalho. Nosso movimento é do Brasil católico, disciplinado e forte contra a anarquia que queriam que vivêssemos”.

Apesar de todo o entusiasmo inicial dos paulistas, São Paulo tinha outros problemas além de estar lutando sozinho contra o resto do Brasil pela causa constitucionalista. O exército paulista não possuía grande poder de fogo. Na data do início da revolução, 9 de julho, os paulistas tinham apenas 6 milhões de cartuchos.


Armas usadas pelos paulistas

Os líderes paulistas esperavam um fim rápido para o conflito e não se preocuparam com o treinamento das tropas e com a estocagem de munição. O conflito começou a se mostrar longo e difícil. Era necessário preocupar-se com formas de improviso para compensar as deficiências que começavam a aparecer durante a guerra.

Os paulistas passaram a se organizar em movimentos civis. Organizações como a Legião Negra, a Liga de Defesa Paulista e o Instituto do Café lançaram uma forte campanha para alistar voluntários. As inscrições começaram na madrugada do dia 10 de julho, em vários postos espalhados pelo estado. Na mesma data, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, foi formado o Batalhão Universitário, que foi enviado para a fronteira com o Paraná, na frente de batalha do Itararé. Outra tropa formada por civis foi o Batalhão Esportivo, que tinha como sargento Artur Friedenreich, uma das primeiras estrelas do futebol brasileiro.


Pequeno manequim que reproduz a vestimenta dos soldados paulistas

A falta de recursos financeiros se configurava rapidamente. Para compensar as carências, foi criado um bônus de guerra para desempenhar a função de moeda. Para promovê-lo, foi lançada a campanha “Ouro Para São Paulo”, convocando a população a doar enfeites preciosos e jóias. A campanha começou em meados de agosto de 1932 e, só na primeira semana, 10 mil pessoas fizeram doações só na capital paulista. Nos últimos dias da revolução, foram registradas um total de 80 mil doações em todo o estado. Cada contribuinte recebia um diploma com a frase: “Dei ouro para o bem de São Paulo”.

Diploma que era entregue aos paulistas que se alistavam para lutar na revolução. Nota-se a figura de uma mulher formando o mapa do estado de São Paulo

Cartazes da Revolução Constitucionalista ...
convocando a população ...
a lutar por São Paulo

A Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) foi ativamente importante na promoção da guerra. Oficinas e fábricas foram convertidas para atenderem a produção de armas, munições e capacetes de aço. No auge da produção, foram fabricados cerca 8 mil granadas e 200 mil cartuchos de fuzil diariamente. As granadas paulistas chegaram a ser consideradas superiores às de fabricação francesa.

Contudo, a Revolução Constitucionalista de 1932 era uma revolta das elites e da classe média paulista, que queriam a volta de suas regalias ligadas à autonomia estadual cessada por Getúlio Vargas. Os operários e as classes pobres paulistas não apoiavam diretamente a causa Constitucionalista, sendo mais solidários à política paternalista e trabalhista do populista Getúlio Vargas. Sendo assim, a FIESP, temendo sabotagens nas suas fábricas, criou uma milícia industrial para oprimir eventuais revoltas e dificuldades criadas pelos operários.

Outra classe paulista que apoiou a revolução foi a dos artistas e intelectuais. Nomes como a pintora Anita Malfati, o poeta Guilherme de Almeida e o jornalista Paulo Duarte formaram entusiasmado coro com a causa rebelde constitucionalista.

O consagrado escritor de Taubaté, Monteiro Lobato, escreveu em agosto de 1932: “A atitude única que o instinto de conservação impõe a São Paulo, depois da vitória, deverá expressar-se nessa fórmula: hegemonia ou separação. (...) Temos que arrancar as armas federais (que o dinheiro paulista pagou) das munhecas dos nosso queridíssimos irmãos antes que elas se voltem contra nós ainda uma vez. (...) Sejamos lobos contra lobos. Lobos gordos contra lobos famintos”.

O escritor Monteiro Lobato

Outra importante arma para a mobilização do povo em prol da revolução em São Paulo foi o uso do rádio. Pela primeira vez, o rádio era empregado com o propósito da promoção de uma guerra em toda a História do Brasil. As rádios Educadora e Record eram ouvidas fielmente pelo povo paulista, e ninguém queria ouvir as estações cariocas. Durante o discurso de Ibrahim Nobre, o povo vibrava entusiasmado e inúmeras pessoas choraram comovidas com as palavras do ardente orador.

O locutor César Ladeira, da rádio Record de São Paulo, ficou conhecido como “A Voz da Revolução”, ao transmitir mensagens radiofônicas diárias conclamando a bravura do povo. Outro radialista com importante papel na revolução foi João Neves da Fontoura, que descrevia pelo microfone a mobilização dos paulistas. Dizia o locutor: “O entusiasmo de São Paulo em armas entusiasmaria até mesmo os céticos. Há uma estranha beleza nessa metamorfose marcial. Um povo de trabalhadores despe a blusa e veste a farda”. Ao fundo, ecoava a marcha Paris Belfort, que acabou virando o hino da Revolução Constitucionalista de 1932.

No sul de Minas Gerais, a polícia perseguia as pessoas que possuíam aparelhos de rádio e, em várias cidades, as irradiações das emissoras de São Paulo foram proibidas.

Uma das características mais marcantes da Revolução Constitucionalista de 1932, e que nunca foi observada de forma igual em outra revolução brasileira, foi a participação das mulheres. Naquela época, as damas ocupavam um papel secundário no cenário da participação política brasileira. Porém, as paulistas se envolveram diretamente na causa de seu estado.

Algumas bravas mulheres, como a professora rural Maria Iguassiba, combateram na linha de fogo do fronte. Outras, como Maria Emília Leonel, que era presidente da Cruz Vermelha, viajavam pelo interior levando mensagens entre o campo de batalha e o Quartel General da capital paulista.

Mulheres paulistas desfilando junto com os soldados revolucionários constitucionalistas

Mas entre todas as bravas e nobres atividades das mulheres durante a Revolução Constitucionalista de 1932, sem dúvida foi na retaguarda que o apoio feminino se configurou mais importante. As principais atividades das mulheres paulistas foram realizadas em hospitais, nas oficinas e nas “Casas de Soldado”.


Mulheres em atividade de apoio na retaguarda, confeccionando peças de fardamento para as tropas paulistas

Só no primeiro mês da revolução, 7200 mulheres confeccionaram 440 mil peças de farda destinadas aos soldados. Refeições eram servidas pelas mulheres aos combatentes nas “Casas de Soldado” localizadas em todo o estado. Só em uma delas, sediada na “Bolsa de Mercadorias”, foram servidos 149 mil almoços nos dois primeiros meses de atividades. O apoio das mulheres paulistas foi tanto que elas chegaram a envolver seus filhos em idade escolar na causa constitucionalista. As crianças também se envolviam na propaganda, lendo discursos pelas ruas e compondo batalhões infantis que desfilavam exibindo cartazes com frases como: “Se necessário, também iremos”.

Crianças do pelotão infantil dando apoio moral às tropas paulistas


Apesar de todo o esforço das mulheres e das tropas formadas pela Força Pública paulista e por civis, os três comandantes constitucionalistas (coronel Euclides de Figueiredo e os generais Bertholdo Klinger e Isidoro Dias Lopes) enfrentavam tropas militarmente muito superiores às suas.

Para título de comparação, as tropas paulistas formadas pela Força Pública e por civis comuns, seria como um time de futebol amador formado às pressas para enfrentar uma das maiores equipes do futebol brasileiro atualmente. Os soldados paulistas, ainda que motivados e dispostos a lutar pela causa constitucionalista de seu estado, não eram páreo para os fuzileiros navais e para os combatentes de infantaria do Exército Brasileiro comandados pelo general Góis Monteiro, e leais a Getúlio Vargas.


A artilharia paulista


Em todos os estados do brasileiros, a imprensa divulgava que São Paulo queria se separar do Brasil para virar uma república italiana. Em 1932, mais da metade dos 7 milhões de habitantes do estado de São Paulo era de origem italiana. Para todo o Brasil, combater São Paulo era uma questão de manutenção da unidade nacional brasileira.

Na frente de batalha norte, localizada na região de Mogi Mirim e Campinas, 10 mil paulistas enfrentaram 20 mil soldados das forças federais de Vargas. Nos combates ao sul do estado, em Itararé, os paulistas combateram soldados gaúchos do interventor Flores da Cunha, que havia prometido fidelidade a São Paulo antes do início da revolução. Ainda na frente sul, os paulistas possuíam 45 armas automáticas, contra 900 metralhadoras das tropas federais de Getúlio.

Outra significativa deficiência de São Paulo se configurava na sua força aérea. No começo do conflito, os paulistas tinham apenas 4 aviões: dois velhos Waco e dois Potez veteranos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), equipados com metralhadoras manuais. Foram comprados mais três aeronaves no exterior durante o conflito, e ainda mais dois aviões foram trazidos do Rio de Janeiro por pilotos federais que desertaram e passaram para o lado paulista.

Embora modesta, essa esquadrilha formada por 9 aeronaves era motivo de grande orgulho para os paulistas, que apelidaram os aviões de “gaviões de penacho”. Em 21 de setembro de 1932, esses “gaviões” realizaram sua maior façanha, abatendo 5 dos 7 aviões federais pousados em Mogi Mirim.

Contudo, os aviões de Getúlio Vargas, chamados de “vermelhinhos”, que eram aparelhos modelos Corsário, Savoia 55 e Fleet, eram muito mais velozes e numerosos que os 9 aviões da modesta esquadrilha paulista. O “vermelhinhos” de Getúlio espalharam intenso terror não só nas frentes de batalha, mas também em cidades como Campinas, além de Guaratinguetá e Aparecida do Norte no Vale do Paraíba paulista.

Exemplar preservado da esquadrilha de "vermelhinhos" de Getúlio Vargas, que atuou no bambardeio de diversas cidades paulistas

Toda essa destruição e morte espalhadas tanto pelos aviões paulistas como pelos aviões federais, ocasionaram outro triste acontecimento. Santos Dumont, o pai da aviação, estava muito deprimido durante a Revolução Constitucionalista, em julho de 1932.

Dumont repousava no Guarujá, acompanhado por parentes e amigos, quando recebeu a notícia do primeiro bombardeio aéreo de cidades paulistas, no dia 13 de julho de 1932. No dia seguinte, o Pai da Aviação escreveu um pronunciamento ao povo brasileiro, no qual pedia a volta da Constituição de 1891 como solução para os problemas políticos e econômicos que abalavam o Brasil.

Cada vez mais abalado, Santos Dumont confessou seus remorsos a um amigo: “Não haverá meio de evitar derramamento de sangue de irmãos? Por que fiz eu esta invenção que, em vez de concorrer para o amor entre os homens, se transformou numa maldita arma de guerra? Horrorizam-me estes aeroplanos que estão sempre pairando sobre Santos”.

Em 23 de julho, o Campo de Marte em São Paulo foi bombardeado. Na mesma data, os vermelhinhos de Getúlio Vargas atacaram o Forte Itaipu, em Santos. Os ruídos das explosões terminaram de minar o então frágil controle emocional de Santos Dumont. O Pai da Aviação foi para seu quarto, no Hotel de La Page, trancou-se no banheiro e se enforcou.


Santos Dumont

A Revolução Constitucionalista de 1932 foi idealizada pelos paulistas para derrubar o governo federal de Vargas. O paulistas tinham, inicialmente, o plano de marchar junto com soldados do Rio Grande do Sul, do Mato Grosso e de Minas Gerais rumo ao Rio de Janeiro para derrotar Getúlio Vargas e reimplantar uma constituição que garantisse autonomia econômica e política às unidades estaduais, e São Paulo era o principal interessado nisso.

Porém, os acontecimentos ocorridos a partir do início da revolução fizeram os paulistas ficarem ilhados dentro de seu território, combatendo isolados em lutas defensivas. De invasores, os paulistas passaram a invadidos pelas tropas federais de Vargas. As deficiências eram tantas, que os paulistas tiveram que improvisar algumas “armas” digamos, alternativas e bem curiosas.

A Matraca, por exemplo, era uma roda dentada com uma manivela que, quando girada em alta velocidade, fazia os dentes da roda rasparem em uma lâmina de aço. O grande ruído provocado: “tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá, simulava uma potente metralhadora disparando, e sugeria um suposto alto poder de fogo das tropas paulistas. Foi a partir da Matraca que surgiu a expressão atual que geralmente é dita a uma pessoa que fale demais: “Fecha essa matraca!”

A matraca


Mas os paulistas também fabricaram armas de verdade, que não faziam só barulho. A Bombarda, por exemplo, era uma espécie de bazuca. Porém, uma das mais eficientes armas fabricadas foi o morteiro “Major Marcelino”, que ficou conhecido como “MMM”. No primeiro teste feito com este morteiro, morreram seu inventor, o major Marcelino, e o coronel Júlio Marcondes Salgado, tendo também o general Bertholdo Klinger ficado ferido na ocasião.

Os paulistas também construíram carros lança-chamas e três trens blindados. Os trens eram usados no início da guerra para atacarem as tropas de Vargas localizadas perto das ferrovias. Os trens blindados chegavam espalhando morte e pânico.


Carros lança-chamas dos paulistas


Paulistas junto ao trem blindado

Apelidado de "fantasma da morte" pelas tropas federais de Getúlio, o trem blindado deslocava-se bem devagar em suas primeiras viagens. Os soldados inimigos pensavam tratar-se de um trem de carga comum, e corriam ansiosos ao seu encontro. Quando percebiam que era um trem paulista de guerra, já era tarde. Eram mortos por um canhão, doze fuzis e quatro metralhadoras instaladas em torres giratórias

Apesar de todo esforço de São Paulo, suas tropas terrestres não conseguiam deter o avanço das forças federais profissionais e bem treinadas de Getúlio Vargas. A resistência paulista foi minada entre agosto e setembro de 1932, quase três meses após o início do conflito.

No Vale do Paraíba paulista, os constitucionalistas perderam várias posições estratégicas e tiveram que abandonar diversas cidades. Cunha/SP, encravada entre as serras do Mar e da Bocaina, foi dominada pelos fuzileiros navais, que desembarcaram em Paraty, no estado do Rio, e subiram a Serra do Mar através do trajeto da Estrada Real e cruzaram a divisa com São Paulo.

Na ocasião, o soldado paulista Paulo Virginio foi aprisionado pelos fuzileiros de Vargas e obrigado a cavar a própria cova antes de ser friamente executado. O trecho da Estrada Real que liga Guaratinguetá/SP à Cunha/SP, e depois desce até Paraty/RJ, recebeu o nome de rodovia Paulo Virginio no trecho localizado dentro do território do estado de São Paulo.

A saudade foi um dos principais problemas enfrentados pelas tropas paulistas. Para minimizar o isolamento entre as frentes de batalha e as cidades, que tanto colocava em baixa a já abalada moral dos soldados de São Paulo, foi criado um ágil serviço de correio, chamado de Correio Militar MMDC, em alusão às iniciais dos quatro jovens mortos antes do início da revolução (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo). As cartas recebidas pelos soldados os motivavam nas lutas, mas não eram capazes de impedirem as tristes e numerosas baixas. Uma das cartas, encontrada no bolso da farda vestida no cadáver de um combatente, continha o seguinte texto escrito por uma esposa arrependida por tê-lo motivado a lutar: “Tu, meu maridinho, não podes morrer! Lembra-te que até teus pais me acusam! Tu precisas viver!”

Outra importante posição estratégica perdida pelos paulistas foi a entrada do chamado Grande Túnel, que marca a divisa entre São Paulo e Minas Gerais. A perda da posição foi significativa para a derrota final paulista, já que representou o imediato recuo das tropas de São Paulo e a perda das cidades do Vale do Paraíba paulista para as tropas federais de Vargas.




Entrada paulista do histórico túnel da Revolução de 1932. Localizado no alto da Serra da Mantiqueira, a aproximadamente 900 metros de altitude, o chamado "Grande Túnel" possui 1 quilômetro de extensão e teve sua construção concluída em 1884, por ordem do Imperador Dom Pedro II, para ligar o rico e cafeeiro Vale do Paraíba paulista do século 19 à cidade de Três Corações/MG



Por marcar a divisa entre SP e MG, separando os municípios de Cruzeiro/SP e Passa Quatro/MG, o túnel representou uma posição estratégica onde foram travadas sangrentas e decisivas batalhas da Revolução Constitucionalista de 1932. Os paulistas chegaram a empurrar duas locomotivas para dentro do túnel, tombando-as em seguida, na tentativa de impedir a entrada em São Paulo das tropas federais de Getúlio vindas de MG

Visão interna da entrada paulista do histórico túnel. Na ocasião dos combates, alguns soldados paulistas permaneceram por duas semanas no interior do túnel, resistindo com tiros à invasão das tropas de Getúlio Vargas


Soldados de São Paulo guardando a entrada paulista do túnel durante a Revolução de 1932

Combatentes paulistas em trincheira perto da entrada paulista do túnel, no alto da Serra da Mantiqueira. Ainda hoje, as trincheiras podem ser observadas no local. Artefatos da Revolução Constitucionalista, como pinos de granadas e cartuchos de velhos mosquetões usados nos combates, surgem em ocasiões que a terra é removida naquela região

Na frente de batalha norte, as tropas de Vargas já cercavam Campinas, onde ocorreu a última batalha da Revolução Constitucionalista. Em 1 de outubro de 1932, o coronel Herculano de Carvalho assinou a rendição final para as tropas de Getúlio Vargas comandadas pelo general Góis Monteiro.

Terminada a revolução, Vargas nomeou um novo interventor federal para São Paulo, Valdomiro Castilho de Lima. Os líderes constitucionalistas, 77 no total, foram presos e levados ao Rio de Janeiro. Alguns foram enviados de lá para Portugal.

Vargas venceu a revolta da elite paulista, porém, percebeu que precisava do apoio do rico estado de São Paulo para governar. As reivindicações da Revolução Constitucionalista de 1932 acabaram não só se mostrando compatíveis com os que queriam o retorno às antigas formas oligárquicas cafeeiras de poder da República Velha, que davam autonomia aos estados, como também com os que pretendiam estabelecer uma democracia liberal centralizada no poder de um governo federal forte.

Getúlio Vargas convocou eleições para a elaboração de uma Assembléia Constituinte. Nas eleições, realizadas em maio de 1933, foi posta em prática a Lei Eleitoral, que tinha como principais características o voto secreto, a criação da Justiça Eleitoral, o direito das mulheres votarem e serem votadas, além da participação na Assembléia Constituinte de representantes de sindicatos de trabalhadores, patrões, profissionais liberais e funcionários públicos.

Entre os 254 parlamentares eleitos, estava a primeira mulher a ocupar uma cadeira do Parlamento em toda a História do Brasil, a paulista Carolina Pereira de Queiroz. A Constituinte de 1933 mudou significativamente os moldes políticos do Brasil, mas só aconteceu graças à atitude dos paulistas, que pegaram em armas um ano antes, em 1932.

A Revolução Constitucionalista de 1932 foi um dos maiores conflitos armados entre brasileiros, sendo o maior combate ocorrido em nosso território em todo o século 20. Existem duas visões de análise sobre o conflito: a dos getulistas, que foram os vencedores e acabaram influenciando o entendimento educacional propagado aos brasileiros pelos livros didáticos de história, e a dos constitucionalistas paulistas, que foram os perdedores da guerra e cujo lema repetido até hoje pelos poucos combatentes ainda vivos é: “Pela lei e pela ordem”.

É curioso notar que a Revolução de 1932 é o único movimento revolucionário ocorrido na História do Brasil em que a comemoração do evento seja realizada pelos vencidos e não pelos vencedores. Desde 1997, o dia 9 de julho, que marca a data inicial da revolução, foi instituído como feriado estadual em São Paulo.


Oficialmente, morreram 634 soldados paulistas nos combates da Revolução Constitucionalista de 1932. Os historiadores dizem que certamente esse número deve chegar em torno de 1000 mortos. O historiador Jeziel de Paula afirma no livro “Imagens Construindo a História” que, seguramente, o número de paulistas mortos no conflito foi maior que o da perda de combatentes durante a campanha da Força Expedicionária Brasileira (FEB), em 1945, na Segunda Guerra Mundial.

Cássio Ribeiro

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