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sexta-feira, 30 de maio de 2008

AS DUAS IRLANDAS

As Ilhas Britânicas são na verdade uma continuação física do velho continente Europeu. O bloco continental que forma a Europa fica com a superfície submersa na região do Canal da Mancha, que separa as Ilhas Britânicas do litoral da Europa.




Imagem de satélite da Europa: no meio da imagem, à esquerda, observa-se o Arquipélago Britânico, ...


que é separado da Europa pelo Estreito de Dover. De Dover, na Inglaterra, até o cabo Gris-Vez, na região de Calais, que fica no norte da França, são 33 quilômetros de mar


O arquipélago britânico é formado por 6 mil ilhas. As duas maiores e mais importantes são a Grã-Bretanha e a Irlanda. A Grã-Bretanha é a maior, e possui 244 mil quilômetros quadrados. Já a Irlanda, bem menor, tem uma área de 84 mil quilômetros quadrados.



Os primeiros habitantes que originaram a população da Irlanda foram os Celtas, os mesmos que originaram a maioria da população da França. Já a Grã-Bretanha, é formada pela Inglaterra dos bretões, pelo País de Gales dos galeses, e pela Escócia dos escoceses.



A Irlanda foi cristianizada a partir do século 5, mas os irlandeses nunca formaram um reino único. Já em seu início, a ilha foi dividida pelos irlandeses em quatro reinos fracos, o que culminou com a dominação da Irlanda pelos reis ingleses, a partir do ano de 1171.



Em 1534 na Inglaterra, a Reforma Anglicana tornou o protestantismo a religião oficial inglesa, também seguida no Pais de Gales e na Escócia. Na ilha da Irlanda, ao norte, alguns ingleses e galeses que lá viviam, passaram a seguir o anglicanismo protestante, porém, os irlandeses daquela região, decidiram continuar católicos, a fim de que sua identidade cultural e nacional permanecessem preservadas apesar da dominação inglesa.



As duas maiores ilhas do arquipélago britânico: Grã-Bretanha, a direita, que abrange os territórios da Inglaterra, do País de Gales e da Escócia, ao norte. A Irlanda, à esquerda em amarelo e roxo, é a segunda maior ilha do arquipélago



bandeira do País de Gales

bandeira da Inglaterra



bandeira da Escócia




A união entre as bandeiras da Inglaterra e da Escócia, mais a antiga bandeira da ilha da Irlanda, dominada inicialmente por inteiro pela Grã-Bretanha, originou a bandeira do Reino Unido





Reino Unido



Para promover o fortalecimento de sua dominação na Irlanda, a Inglaterra cedeu para imigrantes escoceses e ingleses, terras que pertenciam a irlandeses. O ato era chamado de Plantation, e concentrava nas mãos dos colonizadores ingleses, extensos latifúndios cultiváveis. Essa política provocou a revolta inicial dos irlandeses contra a rainha inglesa Elisabeth I (1558-1603).



Em 1847 e 1848, a Irlanda foi devastada pela Grande Fome, que foi uma praga generalizada nas plantações de batatas, que eram o alimento básico da grande parcela da população de pobres irlandeses. Num total de 8,5 milhões de irlandeses católicos, 800 mil morreram de inanição na ocasião.



O governo inglês não tomou nenhuma providencia para tentar controlar a devastação causada pela fome. Milhões de irlandeses emigraram para os Estados Unidos. A população da Irlanda foi reduzida para 4 milhões de habitantes em 1900.



Os protestantes ingleses, em número de 750, eram donos de mais de 50% das terras cultiváveis irlandesas. Os católicos controlavam apenas 14% destas terras, por meio de pequenas propriedades.



As indústrias da Irlanda, concentradas ao norte, também eram controladas por ingleses, escoceses e galeses que, em função da forte imigração operária, eram a maioria na região norte da irlanda. Em 1916, no domingo de Páscoa, ocorreu uma revolta irlandesa nacionalista, que foi dominada pelo exército inglês após sangrentos confrontos.



Em 1919, os parlamentares irlandeses eleitos nas eleições gerais do Reino Unido inglês não aceitaram fazer parte da Câmara dos Comuns, que incluía representantes da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda. Os representantes da Irlanda decidiram formar um parlamento paralelo, chamado de Dáil Éireann, que expediu imediatamente a Declaração Unilateral de Independência da proclamada República Irlandesa, mas o ato não foi reconhecido internacionalmente.



As tropas britânicas e os voluntários da Irlanda do Norte entraram em ação. Foram dois anos de conflitos militares e ataques terroristas com bombas, na chamada Guerra Anglo-irlandesa, ou Guerra da Independência da Irlanda.



Em 1921, o governo do Reino Unido e líderes da Irlanda firmaram um acordo no tratado Anglo-Irlandês, que reconhecia o estado livre da Irlanda, correspondente a 85% do território da ilha irlandesa, e o Ulster, que representa 15% do território da Irlanda e, sendo também chamado de Irlanda do Norte, permaneceu controlado pelo Reino Unido da Grã-Bretanha, já que a maioria de sua população é formada por protestantes escoceses e ingleses, e uma minoria de irlandeses católicos.


Domínio inglês sobre a Irlanda do Norte, que também pertence ao Reino Unido




bandeira da Irlanda do Norte




Após o reconhecimento, o estado da Irlanda foi integrado à Comunidade Britânica das Nações (Commonwealth), mas os irlandeses nunca tiveram um sentimento de união política e econômica com o Reino Unido. Na Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), os outros membros da Commonwealth (Nova Zelândia, Austrália, África do Sul e Canadá) participaram do conflito como aliados do Reino Unido. A Irlanda permaneceu neutra.





Em 1949, a Irlanda deixou de participar da Commonwealth, e proclamou sua total independência, com o nome de República da Irlanda ou Eire, que quer dizer ilha em seu idioma original céltico.













bandeira da República da Irlanda, que é a porção sul da ilha irlandesa, e abrange 85% de seu território




Dublin, capital da República da Irlanda


Como a República da Irlanda era um país agrário, com reduzidas oportunidades econômicas, muitos católicos migraram para a Irlanda do Norte, em busca de trabalho nas indústrias ligadas ao Reino Unido, e concentradas naquela região. Hoje, os católicos constituem 40% da população total da Irlanda do Norte, e sofrem intensa discriminação por parte dos 60% protestantes da população, ligados à Grã-Bretanha.





Em 1956, foi criado na República da Irlanda o IRA (Irish Republican Army) ou Exército Republicano Irlandês, que é uma organização terrorista que reivindica a unificação entre a República da Irlanda (Eire) e os seis condados que formam a Irlanda do Norte (Ulster). O IRA já executou vários atentados à bomba e assassinatos de autoridades britânicas e membros das lideranças protestantes da Irlanda do Norte. A principal ação do IRA foi a explosão, em 1979, da lancha pilotada pelo tio da rainha Elisabeth II, e considerado, na Inglaterra, herói da Segunda Guerra Mundial, almirante lorde Mountbatten.






Embora o IRA tenha sido criado oficialmente em em 1956, voluntários que defendiam a República da Irlanda durante a Guerra da Independência da Irlanda, no início da década de 1920, já eram chamados de membros do IRA (Exército Republicano Irlandês)


As reações das forças de segurança do Reino Unido e dos protestantes da Irlanda do Norte também já provocaram muitas mortes entre a população católica da República da Irlanda. O episódio mais conhecido aconteceu em 1972, quando 14 civis católicos foram mortos por soldados ingleses em Belfast. O Fato ficou conhecido como "Domingo Sangrento", e virou tema de uma canção da banda de rock irlandesa U2.



Ainda em 1972, o governo do Reino Unido colocou a Irlanda do Norte sobre seu controle direto, por meio de uma ocupação militar. Só em 1998, o primeiro ministro trabalhista inglês Tony Blair estabeleceu um acordo entre ele, o primeiro-ministro da República da Irlanda, e os representantes protestantes da Irlanda do Norte, com direito a intevenção do presidente dos Estados Unidos na ocasião, Bill Clinton. O acordo ficou conhecido como Acordo da Sexta-Feira Santa.



No acordo, ficou estabelecida a realização de eleições para a formação de um parlamento na Irlanda do Norte, que indicaria um primeiro-ministro para comandar politicamente a região, que continuaria ligada ao Reino Unido, porém, com certa autonomia. Os católicos passaram a ter o direito de votar na Irlanda do Norte, o que antes não acontecia.



Belfast, capital industrializada da Irlanda do Norte (Ulster), onde foi assinado o Acordo da Sexta-Feira Santa, em 1998


Apesar do acordo, nem o IRA, que quer a unificação entre as duas irlandas e a formação de uma só república, nem os extremistas protestantes, que querem continuar ligados à Grã-Bretanha, resolveram abandonar de vez as armas. Ambos os lados ainda possuem membros extremistas que apostam em ações violentas, a fim de que os resultados derrubem o acordo estabelecido em 1998.



Cássio Ribeiro


Críticas e sugestões: e-mail zzaapp@ig.com.br e orkut http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=18423333339962056517

3 Comentários:

  • Olá. Parabéns pelo artigo, tirou muitas das minhas dúvidas sobre a atual condição da Irlanda em relação ao IRA, desde as suas origens. De fato, a Irlanda é um país com grande potencial e fascina qualquer pessoa que queira estudá-lo um pouco mais a fundo.

    Por Blogger vêjota, às 28 de abril de 2009 09:54  

  • Cara, cumprimentos pelo excelente trabalho! Encontrei aqui (em seu blog) as explicações que eu precisava sobre a Irlanda. Continue assim! Feliz 2014!

    Por Blogger Regis Bastian, às 31 de dezembro de 2013 11:57  

  • Cássio , parabéns e obrigada pela oportunidade de nos transmitir seus dons - em uma leitura clara, objetiva e cativante - formar um "retrato mental" da história deste país; puxa vida quem dera tivéssemos mais professores com esta didática!!!
    Parabéns mesmo amigo!!
    Eliene

    Por Blogger , às 29 de maio de 2014 04:30  

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